Alternava na noite acompanhada de uma pequena nausea não própriamente pelo senso comum de dar a velhos marinheiros bêbados momentos de extase e corrimentos seminais, não pela sua condição de mãe solteira vigiada de perto pelo Toninho da Pistola, sempre pronto a aprontá-las, mas pelo perigo constante de a esquina dessa noite lhe cair em cima sem lhe pedir licença. Medo era coisa que desconhecia mas encarava com dificuldade a ideia de fenecer, achava-se uma rosa com bastante vigor para levar esta vida no fio da navalha.
O que a mantinha com a alma quente eram passagens de livros onde a escrita a adornava de sensações:
«O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe. Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas. Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação. Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim. De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima. »
2 de janeiro de 2010
30 de dezembro de 2009
Rumi resgatado
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.
28 de dezembro de 2009
Macacões de luz
Havia um oráculo que sabia das coisas escondidas, inconcretas, escorregadias, poluídas
Na sua casa fechada a cadeados siderantes toda a informação era nada toda a areia eram foguetes de matéria para se poderem engolir os sapos e mastigar os assassinios
As manobras das nações traiçoeiras tolhiam-lhe os movimentos mas o seu xamanismo poderoso empurrava para a luz as coisas criminosas. Ele acreditava na sua missão divina.
Acoitava-se na residencial perto da policia maritima e abrilhantado pelo wifi da zona zurzia categórico nas carnes podres dos corruptos o seu blog vingativo.
As redes da velha Albion eram de algum modo ténues e isso concedia-lhe um certo alivio.
http://gazetadigitalmisteriodaluz.blogspot.com/2008/07/quem-se-responsabiliza-pelo-caso-maddie.html
21 de dezembro de 2009
Tributo a Sam
20 Melhores Discos da Década (2000/2009)
D'Angelo, Voodoo (2000)
William Basinski, The Disintegration Loops I-IV (2001-03)
The White Stripes, White Blood Cells (2001)
Los Hermanos, Bloco do Eu Sozinho (2001)
Zero 7, Simple Things (2001)
Beck, Sea Change (2002)
Queens of the Stone Age, Songs for the Deaf (2002)
David Sylvian, Blemish (2003)
Junior Boys, Last Exit (2004)
Vincent Delerm, Kensington Square (2004)
Harold Budd, Avalon Sutra (2004)
Telefon Tel Aviv, Map of What is Effortless (2004)
Mark Lanegan Band, Bubblegum (2004)
Richard Hawley, Cole's Corner (2005)
Smog, Supper (2005)
The National, Alligator (2005)
Stars of the Lid, And Their Refinement of the Decline (2007)
Marcelo Camelo, Sou (2008)
Thomas Feiner & Anywhen, The Opiates Revised (2008)
Portishead, 3 (2008)
20 Melhores Discos de 2009
20. Soulsavers, Broken
19. B Fachada, B Fachada
18. Blues Control, Local Flavor
17. The Dead Weather, Horehound
16. Samuel Úria, Nem Lhe Tocava
15. Dollar Llama, Under the Hurricane
14. Vladislav Delay, Tumma
13. Them Crooked Vultures, Them Crooked Vultures
12. God Help the Girl, God Help the Girl
11. Vincent Delerm, Quinze Chansons
10. Animal Collective, Merryweather Post Pavilion
9. Sunn O))), Monoliths & Dimensions
8. Jon Hassell, Last Night the Moon Came Dropping Her Clothes in the Street
7. Dan Auerbach, Keep it Hid
6. Bill Callahan, Sometimes I Wish We Were an Eagle
5. Grizzly Bear, Veckatimest
4. Prefab Sprout, Let's Change the World With Music
3. Dirty Projectors, Bitte Orca
2. Richard Hawley, Truelove's Gutter
1. David Sylvian, Manafon
Em jeito de homenagem catado de um tipo que vagamente me pareceu familiar. Sam foi grande mas o seu trono foi agora usurpado por um arrivista finlandês. Três vivas ao estóico!
20 de dezembro de 2009
Before the flood
Tristezas não pagam dívidas e vozes de burro não chegam aos céus e a cavalo dado não se olha o dente e não adianta chorar sobre leite derramado, etc. Dizia o outro: Vamos salvar Portugal (assim naquele tom Estado Novo e tal, aristocrata qb) escrevam, pintem, esculpam, o diabo a quatro...
Uns senhores é o que é o resto é a ralé.
Uns senhores é o que é o resto é a ralé.
10 de dezembro de 2009
Miscelânea Molotov
Começamos com um clássico da restauração portuguesa - o extinto pudim molotov, responsável por milhares de cáries nas crianças do baby boom de finais dos anos 70. Às vezes com sorte, ainda se encontra algum por aí.
O estacionamento, numa das belas zonas residenciais ao redor da bela cidade de Portimão não é problema. Basta erguer uma barraca e personalizar com a matricula do devido proprietário. Quem não tem, fica à chuva.
Aqui temos uma solução original, que se eleva ao trânsito. Esta plataforma também será usada pelos futuros estúdios de cinema Picture Portimão e segundo fonte segura. Um duplo de Harrison Ford vai atirar-se por aqui abaixo num carro em chamas perseguido por terroristas ucranianos descalços.
A equipa de filmagens já fez um contrato de catering com um dos restaurantes locais, que é um verdadeiro retiro, especialmente para anda fugido ou na clandestinidade e não se importa de não ver o que está no prato.
Alguns cidadãos já adornam as suas casas para a chegada do realizador George Lucas.
Também há figurantes para as cenas mais escaldantes e mão-de-obra disponível para a industria audiovisual do século XXI.
A população está em pulgas (salvo seja).
Oferecem o seu melhor kitsch para o set.
E também há quem queira vender casas de sonho, talvez para as estrelas alheias a guerras políticas no cú da Europa. Também quero uma fatia de molotov, se faz favor!
7 de dezembro de 2009
Copenhaga precisa de ajuda
Eu, os meus, você os seus, vem irmão evangelizar o mundo com as bifanas, bifanas 100% hallal, refundar o mundo pela arte, deixar a religião para as horas de prazer com o universo, comprar e conservar e passar e renovar, inovar, relacionar, comemorar, mas sempre com a moral suficiente para não chavascar, violar, espezinhar, liquidar, ignorar aqui a cena onde a gente vive desafogadamente. Porque tal e coiso onde ganho o meu pãozinho, onde arejo a pevide, onde me insurjo surdamente e romanceio desgraças comuns ou só das alheiras. Hoje de novo tudo parece surreal mas mais ténue, aqui por exemplo toda a informação serve de quase nada, são 5 cêntimos de solidão dez reis de sólidó.
A terra vista do espaço é azul e será azul enquanto os homens a souberem preservar - Gil de Montalverne
A terra vista do espaço é azul e será azul enquanto os homens a souberem preservar - Gil de Montalverne
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